UFPR - 2008
Faça um resumo, de até 10 linhas, do texto abaixo.
Compro, logo existo
Templo de culto à mercadoria, o modelo do shopping center, como o conhecemos hoje, nasceu nos Estados Unidos na
década de 1950. São espaços privados, objetivamente planejados para a supremacia da ação de comprar. O que se compra nesses
centros, contudo, é muito mais do que mercadoria, serviços, alimentação e lazer. Compra-se distinção social, sensação de segurança
e ilusão de felicidade e liberdade.
O shopping center é um centro de comércio que se completa com alimentação (normalmente do tipo fast food), serviços
(bancos, cabeleireiros, correios, academias de ginástica, consultórios médicos, escolas) e lazer (jogos eletrônicos, cinema, Internet).
Ali o consumidor de mercadorias se mistura com o consumidor de serviços e de diversão, sentindo-se protegido e moderno. Fugindo
de aspectos negativos dos centros das cidades e da busca conjunta de soluções para eles, os shopping centers vendem a imagem de
serem locais com uma melhor “qualidade de vida” por possuírem ruas cobertas, iluminadas, limpas e seguras: praças, fontes,
boulevares recriados; cinemas e atrações prontas e relativamente fáceis de serem adquiridas – ao menos para os que podem pagar.
É como se o “mundo de fora”, a vida real, não lhes dissesse respeito...
O que essa catedral das mercadorias pretende é criar um espaço urbano ideal, concentrando várias opções de consumo e
consagrando-se como “ponto de encontro” para uma população seleta de seres “semiformados”, incompletos, que aceitam fenômenos
historicamente construídos como se fizessem parte do curso da natureza. O imaginário que se impõe é o da plenitude da vida pelo
consumo. Nesses espaços, podemos ocupar-nos apenas dos nossos desejos – aguçados com as inúmeras possibilidades disponíveis
de aquisição. Prevalece a idéia do “compro, logo existo”.
Concluímos que esse mundo de sonhos que é o shopping center acaba reforçando nas pessoas uma visão individualista da
vida, onde os valores propagados são todos relacionados às necessidades e aos desejos individuais – “eu quero, eu posso, eu
compro”. Assim, colabora para uma deterioração do ser social e o retardamento do projeto de emancipação de seres mais
conscientes, autônomos, prontos para a sociabilidade coletiva – que exige a capacidade da troca desinteressada, da tolerância, da
relação verdadeiramente humana entre o eu e o outro, entre iguais e entre diferentes. Compreendemos que um ser social emancipado
identifica as necessidades individuais com as da coletividade, sem colocá-las em campos opostos.
O shopping center híbrido representa hoje o principal lugar da “sociedade de consumo”, contribuindo para a sacralização do
modo de vida consumista e alienado, um modo de vida em que há uma evidente predominância de símbolos como status, poder,
distinção, jovialidade, virilidade etc. sobre a utilidade das mercadorias. O que se pode concluir é que o sucesso da fórmula atual do
shopping center híbrido como lugar privilegiado para a realização da lógica consumista traz consigo o fracasso da plenitude do ser
social, distanciando-o de qualquer projeto de emancipação e de humanização do ser humano. Como diz o poeta Carlos Drummond de
Andrade [1902–1987] no poema Eu, etiqueta: “Já não me convém o título de homem./ Meu nome novo é coisa./ Eu sou a coisa,
coisamente.”
(Adaptado de PADILHA, Valquíria. A sociologia vai ao shopping center. Ciência Hoje, mai. 2007, p. 30–35.)
Queridos alunos, ex-alunos, companheiros de trabalho, de estudos e de vida, criei este meio de comunicação para aproximar-me de vocês.
quinta-feira, 31 de março de 2011
sábado, 26 de março de 2011
Assunto geral - Pré-Modernismo. Tarefa sobre Triste fim de Policarpo Quaresma para o segundo ano do Ensino Médio do Tableau.
Excerto de Triste fim de Policarpo Quaresma – Lima Barreto
[...]
Por que estava preso? Ao certo não sabia; o oficial que o conduzira, nada lhe quisera dizer; e, desde que saíra da ilha das Enxadas para a das Cobras, não trocara palavra com ninguém, não vira nenhum conhecido no caminho, nem o próprio Ricardo que lhe podia, com um olhar, com um
gesto, trazer sossego às suas dúvidas. Entretanto, ele atribuía a prisão à carta que escrevera ao presidente, protestando contra a cena que presen- ciara na véspera.
Não se pudera conter. Aquela leva de desgraçados a sair assim, a deso- ras, escolhidos a esmo, para uma carniçaria distante, falara fundo a todos os seus sentimentos; pusera diante dos seus olhos todos os seus princípios morais; desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade humana; e ele escrevera a carta com veemência, com paixão, indignado. Nada omitiu do seu pensamento; falou claro, franca e nitidamente.
Devia ser por isso que ele estava ali naquela masmorra, engaiolado, trancafiado, isolado dos seus semelhantes como uma fera, como um crimi- noso, sepultado na treva, sofrendo umidade, misturado com os seus detri- tos, quase sem comer... Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta
lhe vinha, no meio da revoada de pensamentos que aquela angústia provocava pensar. Não havia base para qualquer hipótese. Era de conduta tão irregular e incerta o Governo que tudo ele podia esperar: a liberdade ou a morte, mais esta que aquela.
O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sede de matar, para afirmar mais a vitória e senti-la bem na consciência coisa sua, própria, e altamente honrosa.
Iria morrer, quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara toda ela atrás da miragem de estudar a pátria, por amá-la e querê-la muito, no intuito decontribuir para a sua felicidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso, a sua virilidade também; e, agora que estava na velhice, como ela o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava? Matando-o. E o que não deixara de ver, de gozar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara, não pandegara, não amara — todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à
sua tristeza necessária, ele não vira, ele não provara, ele não expe- rimentara.
Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram gran- des? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada... O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas coisas de tupi, do folklore, das suas tentativas agrícolas... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções.
Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções.
A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete. [...]
Leiam e respondam as questões sobre o texto. Entregar a atividade na portaria na hora da entrada.
1 – Segundo o texto, qual a principal característica do protagonista – Policarpo Quaresma – ao longo da vida?
2- Comente, a partir do texto e das informações de que você dispõe, por que Policarpo Quaresma é considerado personagem quixotesco.
[...]
Por que estava preso? Ao certo não sabia; o oficial que o conduzira, nada lhe quisera dizer; e, desde que saíra da ilha das Enxadas para a das Cobras, não trocara palavra com ninguém, não vira nenhum conhecido no caminho, nem o próprio Ricardo que lhe podia, com um olhar, com um
gesto, trazer sossego às suas dúvidas. Entretanto, ele atribuía a prisão à carta que escrevera ao presidente, protestando contra a cena que presen- ciara na véspera.
Não se pudera conter. Aquela leva de desgraçados a sair assim, a deso- ras, escolhidos a esmo, para uma carniçaria distante, falara fundo a todos os seus sentimentos; pusera diante dos seus olhos todos os seus princípios morais; desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade humana; e ele escrevera a carta com veemência, com paixão, indignado. Nada omitiu do seu pensamento; falou claro, franca e nitidamente.
Devia ser por isso que ele estava ali naquela masmorra, engaiolado, trancafiado, isolado dos seus semelhantes como uma fera, como um crimi- noso, sepultado na treva, sofrendo umidade, misturado com os seus detri- tos, quase sem comer... Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta
lhe vinha, no meio da revoada de pensamentos que aquela angústia provocava pensar. Não havia base para qualquer hipótese. Era de conduta tão irregular e incerta o Governo que tudo ele podia esperar: a liberdade ou a morte, mais esta que aquela.
O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sede de matar, para afirmar mais a vitória e senti-la bem na consciência coisa sua, própria, e altamente honrosa.
Iria morrer, quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara toda ela atrás da miragem de estudar a pátria, por amá-la e querê-la muito, no intuito decontribuir para a sua felicidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso, a sua virilidade também; e, agora que estava na velhice, como ela o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava? Matando-o. E o que não deixara de ver, de gozar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara, não pandegara, não amara — todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à
sua tristeza necessária, ele não vira, ele não provara, ele não expe- rimentara.
Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram gran- des? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada... O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas coisas de tupi, do folklore, das suas tentativas agrícolas... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções.
Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções.
A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete. [...]
Leiam e respondam as questões sobre o texto. Entregar a atividade na portaria na hora da entrada.
1 – Segundo o texto, qual a principal característica do protagonista – Policarpo Quaresma – ao longo da vida?
2- Comente, a partir do texto e das informações de que você dispõe, por que Policarpo Quaresma é considerado personagem quixotesco.
sexta-feira, 25 de março de 2011
O avesso de Rachel de Queiroz. A princípio, ela vai para os fofíssimos do nono ano do Tableau, mas também para todos que gostarem de ler boas notas reflexivas.
O AVESSO
“Quanto mais brilhante e escorreita a face do direito, mais a face do avesso encobre as dificuldades, os arremates feios, os remendos” - Rachel de Queiroz
A vida como ela é uma imagem refletida no espelho! O que vemos está ao contrário do real. O mesmo acontece no mundo espiritual. O que os nossos sentidos percebem são traduzidos de forma invertida pela nossa mente. Sendo assim, a vida é uma grande ilusão de formas, um grande sonho! Sonhos e formas necessários aos propósitos divinos.
Somos escravos da nossa subjetividade, que se mostra predominante sobre o real; do colorido das nossas falsas idéias; das manifestações múltiplas. Somos prisioneiros do pensamento seletivo e preconceituoso e escravos do nosso inconsciente, o qual foi codificado pôr sugestões dúbias. Este mesmo inconsciente é que nos determinas a direção, nos fazendo crer que os nossos pensamentos, pôr estarem em nossa mente, são verdades definitivas, daí o choque com a liberdade de outro.
A nossa liberdade termina onde inicia a liberdade do nosso semelhante, feito pôr Deus, assim como nós, à sua imagem e semelhança.
O que cultivamos é a ótica do vício, o qual nos faz instrumento de tropeço do nosso semelhante. Quando na nossa família há um criminoso, dizemos que o mesmo é romântico, um aventureiro; não consideramos as suas vítimas e nem o prejuízo que as mesmas tiveram. A exclusividade é uma lesão comum a todos nós. A afirmação é enganosa e tida como verdadeira, pôr ser difícil contestá-la.
Nesta temática, a nossa alma é um instrumento da evolução, entretanto predominantemente negativa. Somos um instrumento inverso!
Toda a pureza da filosofia platônica nos conduz a uma reflexão: O dever é superior ao poder e ao querer. Toda vez que a alma busca a razão, assim o faz porque foi ferida. Sendo assim, é o ódio que nos impulsiona na busca.
O poeta Carlos Drumonnd nos adverte que: pôr que há sempre uma porção de dinamite esperando estourar dentro de nossa pobre alma urbana e civilizada.
Sem o exercício espiritual da renúncia e da compaixão, jamais compreenderemos o nosso ego como instrumento da evolução.
Obs.- Meus queridos, imprimam o texto, colem no caderno e fazem um comentário crítico sobre o assunto do mesmo. Um beijo e bom final de semana.
“Quanto mais brilhante e escorreita a face do direito, mais a face do avesso encobre as dificuldades, os arremates feios, os remendos” - Rachel de Queiroz
A vida como ela é uma imagem refletida no espelho! O que vemos está ao contrário do real. O mesmo acontece no mundo espiritual. O que os nossos sentidos percebem são traduzidos de forma invertida pela nossa mente. Sendo assim, a vida é uma grande ilusão de formas, um grande sonho! Sonhos e formas necessários aos propósitos divinos.
Somos escravos da nossa subjetividade, que se mostra predominante sobre o real; do colorido das nossas falsas idéias; das manifestações múltiplas. Somos prisioneiros do pensamento seletivo e preconceituoso e escravos do nosso inconsciente, o qual foi codificado pôr sugestões dúbias. Este mesmo inconsciente é que nos determinas a direção, nos fazendo crer que os nossos pensamentos, pôr estarem em nossa mente, são verdades definitivas, daí o choque com a liberdade de outro.
A nossa liberdade termina onde inicia a liberdade do nosso semelhante, feito pôr Deus, assim como nós, à sua imagem e semelhança.
O que cultivamos é a ótica do vício, o qual nos faz instrumento de tropeço do nosso semelhante. Quando na nossa família há um criminoso, dizemos que o mesmo é romântico, um aventureiro; não consideramos as suas vítimas e nem o prejuízo que as mesmas tiveram. A exclusividade é uma lesão comum a todos nós. A afirmação é enganosa e tida como verdadeira, pôr ser difícil contestá-la.
Nesta temática, a nossa alma é um instrumento da evolução, entretanto predominantemente negativa. Somos um instrumento inverso!
Toda a pureza da filosofia platônica nos conduz a uma reflexão: O dever é superior ao poder e ao querer. Toda vez que a alma busca a razão, assim o faz porque foi ferida. Sendo assim, é o ódio que nos impulsiona na busca.
O poeta Carlos Drumonnd nos adverte que: pôr que há sempre uma porção de dinamite esperando estourar dentro de nossa pobre alma urbana e civilizada.
Sem o exercício espiritual da renúncia e da compaixão, jamais compreenderemos o nosso ego como instrumento da evolução.
Obs.- Meus queridos, imprimam o texto, colem no caderno e fazem um comentário crítico sobre o assunto do mesmo. Um beijo e bom final de semana.
sexta-feira, 18 de março de 2011
Tarefa sobre resenha para as salas do Ensino Médio do Tableau Taubaté
Queridos(as), vocês devem ler a resenha crítica da qual lhes falei na aula de hoje. Ela faz uma crítica bem séria e fundamentada acerca da série Crepúsculo.
Em seguida deixem comentários aqui o blog indicando a opinião de vocês sobre a resenha.
Por fim, elaborem um texto escrito com a mesma opinião e entreguem, como tarefa, na portaria do colégio na segunda-feira, 21 de março.
Lembrem-se de modalizar o nível de linguagem dos dois textos: o do blog poderá ser escrito com a variante mais informal, característica do ambiente de internet, enquanto que o texto escrito deverá ser montando usando-se a variação formal.
BOM TRABALHO A TODOS E ÓTIMO FINAL DE SEMANA.
Um beijo.
Profa. Rosane
Vejam a resenha abaixo.
_____________________________________________________
Escritos pela americana Stephenie Meyer, a popularidade dos livros da série para jovens e adultos composta por O Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse, Amanhecer e Sol da Meia-noite atingiu números enormes. Com a adaptação para o cinema de Crepúsculo lançada em dezembro de 2008 no Brasil e uma venda de 1,3 milhões de livros no dia de lançamento de sua última edição, Meyer já não deve ter dúvidas de seu sucesso — de uma romancista de primeira viagem para o primeiro lugar dos mais vendidos, foi uma subida muito rápida.
Mas por quê? Para descobrir o motivo dos livros estarem inspirando legiões de fãs e dúzias de fan-sites, resolvi lê-los para conhecer o segredo de Meyer.
Para ser direto, querido leitor, eu fiquei horrorizado. Não apenas pela prosa doentia ou pela falta de escrita de qualidade, mas principalmente pelas obras serem insultantes em todos os níveis — para uma mulher, para um adolescente, para um estudante de literatura, até para um graduado em Harry Potter. O pior de tudo é que pouca gente parece perceber isso.
Crepúsculo (Twilight) é a história do assim chamado “padrão” de garota do século XXI, Bella Swan (Bonita Swan?), que é objeto de desejo de não um, não dois, mas um total de cinco rapazes de estilo romântico. Desses, o mais importante é o misterioso e hilário Edward Cullen. Pra começar, Bella desempenha o miserável papel de donzela algumas vezes e depois de duzentas páginas de um suspense mal desenvolvido, descobrimos que Edward é, de fato, um vampiro. Não precisa ter medo, no entanto, pois ele e sua família são o tipo de vampiro chamado “vegetariano”, preferindo animais ao invés de humanos e, inexplicavelmente, frequentando o ensino médio. Esse primeiro livro trata do romance entre Bella e Edward e está constantemente inclinado a colocar Bella em situações perigosas para que seu adorado vampiro possa salvá-la.
Tudo bem, você está dizendo. É um pouco extravagante, mas por que é tão ruim? Primeiro de tudo, os livros apresentam uma heroína que dificilmente consegue dar um passo sem precisar de algum garoto para ajudá-la. Na verdade, a série apresenta visões sexistas em sua quase totalidade — o fato de que Bella desiste de suas ambições e planos para a faculdade com objetivo de casar-se com Edward; o fato de que ela é representada como uma Eva moderna, implorando por sexo ao nobre e moral cavalheiro, enquanto ele deseja preservar sua virgindade; o fato de seu relacionamento ser perigosamente doentio; e finalmente o fato de que quase todas as personagens femininas apresentadas no livro são caricaturas desesperançosamente negativas.
Infelizmente, a série não melhora com os livros seguintes. Em Lua Nova (New Moon) , Bella entra no que ela mesma descreve como estado de “zumbi” quando Edward a deixa. Na verdade, a autora “tão habilmente” coloca páginas em branco com os nomes dos meses como um mecanismo narrativo esdrúxulo para mostrar a profundidade da dor de sua heroína. E também para evitar ter que escrever a parte difícil. Bella se torna meio suicida; ela propositalmente se coloca em perigo e chega mesmo a pular de um penhasco ao ouvir a voz do amante em sua cabeça.
O que isso diz aos leitores, tendo em mente que a principal audiência está nas garotas de 12 a 17 anos, com tendências de impressionar-se com tragédias (não apenas elas, evidentemente)? Que elas devem sumir e ficar costurando por meses se o seu namorado deixá-las? Que não tem problema em arriscar a própria vida, desde que para estar perto de seu amor? Que mensagem apaixonante para dar a uma jovem!
O único aspecto brilhante de Lua Nova é o louvável Jacob Black, um membro da reserva La Push e recém transformado lobisomem. É nas cenas de Bella com Jacob que o leitor vislumbra verdadeiros traços de personalidade. Esse tipo de romance que vai crescendo com o tempo é certamente mais próximo da vida real de um adolescente do que aquele de nobres ideiais entre os amantes Edward e Bella. No entanto, adicionar outra trama (meio esquecida) bem quando Edward e Bella estão juntos, com Jacob sendo chutado como um cachorro, é algo questionável.
Eclipse. É nesse volume que o relacionamento de Bella e Edward toma os piores caminhos. Edward chega a remover o motor do carro de Bella para que ela não vá ver seu amigo Jacob, e ainda deixa sua irmã vampira raptá-la no fim de semana. Bella fica um pouco irritada com isso, é claro, mas acaba escrevendo coisas como “ele é só um pouco super-protetor” e “ele faz isso porque me ama” sobre esse comportamento de Edward. Meu caro leitor, eu realmente fiquei preocupado ao ler isso. Apesar de suas boas intenções (eles estão sempre sendo levados para o inferno, lembre-se), Meyer não apenas cria duas personagens completamente doentias com um relacionamento abusivo e perigoso, mas ela também romantiza e idealiza isso, não só entre Bella e Edward, mas com Bella e Jacob também. Que tipo de coisa isso pode virar na cabeça de um adolescente confuso?
Jacob, por fim, tem um bizarro transplante de personalidade e se transforma em um verdadeiro idiota nesse livro. Ele tenta beijar Bella à força, duas vezes, ignorando seus protestos e ameaça suicídio caso ela o recusar. Mas não é dessa vez que questões como abuso sexual, sexismo ou desigualdade vêm à tona na mente da personagem principal. Ao contrário, enquanto Jacob está beijando-a à força (abuso sexual, diria você), Bella decide que está apaixonada por ele. O que é isso?
Joguei longe minha cópia de Eclipse e estava pronto para esquecer que os livros existiram quando a crepúsculo-mania voltou com o lançamento de Amanhecer (Breaking Dawn). “Eu posso escrever esse artigo lendo apenas os três primeiros”, eu pensei comigo mesmo. No final, contudo, parcialmente por curiosidade e parcialmente como resultado de uma esperança irracional de que Meyer se superaria, decidi lê-lo.
Eu estava errado. Em Amanhecer, Meyer nos dá uma sinceridade desconcertante e, às vezes, assustadora para fechar a série. As várias centenas de páginas estão preenchidas com uma débil-doce-auto-indulgência e um flagrante despedimento de continuidade de realismo. Logo no início, Bella e Edward ficam “na horizontal” depois de uma longa espera (mas só depois do casamento, é claro, nós não podemos cair na tentação de tirar a virgindade de 107 anos de Edward). Bella, de alguma forma, fica grávida. Por favor, diz Meyer, nunca esqueça do fato de que todos os fluidos do corpo dos vampiros são substituídos por seu “veneno” ou que o esperma seca depois de três dias, imagine em um século. De forma ainda mais fantástica, o feto de vampiro/humano cresce a uma velocidade alarmante, tão rápido que Bella sente os “chutinhos” após duas semanas de gestação. Eu nunca estive grávido, mas não precisa ser muito inteligente para saber que há algo errado com esse quadro.
Vou poupar você dos detalhes do restante desse show de horror. Acredite, a cena de nascimento é algo que eu desesperadamente desejaria não ter lido (depois que o assim chamado “bebê” quebra a pelvis, a coluna vertebral e as costelas de Bella, Edward abre caminho com uma versão um tanto insalubre de cesárea: com seus dentes). Desculpe, eu tinha que partilhar minha dor. Bella se torna uma vampira super especial com poderes super especiais e vence o não-conflito do não-clímax. Ah, não se esqueça da sua incrível habilidade de ir caçar na floresta com vestido e salto.
Infelizmente, Twilight não acabou. Já foi lançado um novo livro chamado Sol da Meia-noite (Midnight Sun), mas dessa vez não vou cair na armadilha. O fato preocupante é que milhões de garotas continuarão lendo essa trama sexista sem importar-se com o resto do mundo, obcecadas com o “perfeito” Edward Cullen e o “quente” Jacob Black, fingindo ser Bella Swan e ignorando traços doentios de uma relação, assim como a protagonista.
Eu me pergunto o que aconteceu para que, duzentos anos depois de uma heroína feminista como Elizabeth Bennet, tenhamos retrocedido a ponto de uma “fêmea-heroína-literária”, como a personagem de Meyer o é, fazer tanto sucesso.
(Kellen Rice)
Em seguida deixem comentários aqui o blog indicando a opinião de vocês sobre a resenha.
Por fim, elaborem um texto escrito com a mesma opinião e entreguem, como tarefa, na portaria do colégio na segunda-feira, 21 de março.
Lembrem-se de modalizar o nível de linguagem dos dois textos: o do blog poderá ser escrito com a variante mais informal, característica do ambiente de internet, enquanto que o texto escrito deverá ser montando usando-se a variação formal.
BOM TRABALHO A TODOS E ÓTIMO FINAL DE SEMANA.
Um beijo.
Profa. Rosane
Vejam a resenha abaixo.
_____________________________________________________
Escritos pela americana Stephenie Meyer, a popularidade dos livros da série para jovens e adultos composta por O Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse, Amanhecer e Sol da Meia-noite atingiu números enormes. Com a adaptação para o cinema de Crepúsculo lançada em dezembro de 2008 no Brasil e uma venda de 1,3 milhões de livros no dia de lançamento de sua última edição, Meyer já não deve ter dúvidas de seu sucesso — de uma romancista de primeira viagem para o primeiro lugar dos mais vendidos, foi uma subida muito rápida.
Mas por quê? Para descobrir o motivo dos livros estarem inspirando legiões de fãs e dúzias de fan-sites, resolvi lê-los para conhecer o segredo de Meyer.
Para ser direto, querido leitor, eu fiquei horrorizado. Não apenas pela prosa doentia ou pela falta de escrita de qualidade, mas principalmente pelas obras serem insultantes em todos os níveis — para uma mulher, para um adolescente, para um estudante de literatura, até para um graduado em Harry Potter. O pior de tudo é que pouca gente parece perceber isso.
Crepúsculo (Twilight) é a história do assim chamado “padrão” de garota do século XXI, Bella Swan (Bonita Swan?), que é objeto de desejo de não um, não dois, mas um total de cinco rapazes de estilo romântico. Desses, o mais importante é o misterioso e hilário Edward Cullen. Pra começar, Bella desempenha o miserável papel de donzela algumas vezes e depois de duzentas páginas de um suspense mal desenvolvido, descobrimos que Edward é, de fato, um vampiro. Não precisa ter medo, no entanto, pois ele e sua família são o tipo de vampiro chamado “vegetariano”, preferindo animais ao invés de humanos e, inexplicavelmente, frequentando o ensino médio. Esse primeiro livro trata do romance entre Bella e Edward e está constantemente inclinado a colocar Bella em situações perigosas para que seu adorado vampiro possa salvá-la.
Tudo bem, você está dizendo. É um pouco extravagante, mas por que é tão ruim? Primeiro de tudo, os livros apresentam uma heroína que dificilmente consegue dar um passo sem precisar de algum garoto para ajudá-la. Na verdade, a série apresenta visões sexistas em sua quase totalidade — o fato de que Bella desiste de suas ambições e planos para a faculdade com objetivo de casar-se com Edward; o fato de que ela é representada como uma Eva moderna, implorando por sexo ao nobre e moral cavalheiro, enquanto ele deseja preservar sua virgindade; o fato de seu relacionamento ser perigosamente doentio; e finalmente o fato de que quase todas as personagens femininas apresentadas no livro são caricaturas desesperançosamente negativas.
Infelizmente, a série não melhora com os livros seguintes. Em Lua Nova (New Moon) , Bella entra no que ela mesma descreve como estado de “zumbi” quando Edward a deixa. Na verdade, a autora “tão habilmente” coloca páginas em branco com os nomes dos meses como um mecanismo narrativo esdrúxulo para mostrar a profundidade da dor de sua heroína. E também para evitar ter que escrever a parte difícil. Bella se torna meio suicida; ela propositalmente se coloca em perigo e chega mesmo a pular de um penhasco ao ouvir a voz do amante em sua cabeça.
O que isso diz aos leitores, tendo em mente que a principal audiência está nas garotas de 12 a 17 anos, com tendências de impressionar-se com tragédias (não apenas elas, evidentemente)? Que elas devem sumir e ficar costurando por meses se o seu namorado deixá-las? Que não tem problema em arriscar a própria vida, desde que para estar perto de seu amor? Que mensagem apaixonante para dar a uma jovem!
O único aspecto brilhante de Lua Nova é o louvável Jacob Black, um membro da reserva La Push e recém transformado lobisomem. É nas cenas de Bella com Jacob que o leitor vislumbra verdadeiros traços de personalidade. Esse tipo de romance que vai crescendo com o tempo é certamente mais próximo da vida real de um adolescente do que aquele de nobres ideiais entre os amantes Edward e Bella. No entanto, adicionar outra trama (meio esquecida) bem quando Edward e Bella estão juntos, com Jacob sendo chutado como um cachorro, é algo questionável.
Eclipse. É nesse volume que o relacionamento de Bella e Edward toma os piores caminhos. Edward chega a remover o motor do carro de Bella para que ela não vá ver seu amigo Jacob, e ainda deixa sua irmã vampira raptá-la no fim de semana. Bella fica um pouco irritada com isso, é claro, mas acaba escrevendo coisas como “ele é só um pouco super-protetor” e “ele faz isso porque me ama” sobre esse comportamento de Edward. Meu caro leitor, eu realmente fiquei preocupado ao ler isso. Apesar de suas boas intenções (eles estão sempre sendo levados para o inferno, lembre-se), Meyer não apenas cria duas personagens completamente doentias com um relacionamento abusivo e perigoso, mas ela também romantiza e idealiza isso, não só entre Bella e Edward, mas com Bella e Jacob também. Que tipo de coisa isso pode virar na cabeça de um adolescente confuso?
Jacob, por fim, tem um bizarro transplante de personalidade e se transforma em um verdadeiro idiota nesse livro. Ele tenta beijar Bella à força, duas vezes, ignorando seus protestos e ameaça suicídio caso ela o recusar. Mas não é dessa vez que questões como abuso sexual, sexismo ou desigualdade vêm à tona na mente da personagem principal. Ao contrário, enquanto Jacob está beijando-a à força (abuso sexual, diria você), Bella decide que está apaixonada por ele. O que é isso?
Joguei longe minha cópia de Eclipse e estava pronto para esquecer que os livros existiram quando a crepúsculo-mania voltou com o lançamento de Amanhecer (Breaking Dawn). “Eu posso escrever esse artigo lendo apenas os três primeiros”, eu pensei comigo mesmo. No final, contudo, parcialmente por curiosidade e parcialmente como resultado de uma esperança irracional de que Meyer se superaria, decidi lê-lo.
Eu estava errado. Em Amanhecer, Meyer nos dá uma sinceridade desconcertante e, às vezes, assustadora para fechar a série. As várias centenas de páginas estão preenchidas com uma débil-doce-auto-indulgência e um flagrante despedimento de continuidade de realismo. Logo no início, Bella e Edward ficam “na horizontal” depois de uma longa espera (mas só depois do casamento, é claro, nós não podemos cair na tentação de tirar a virgindade de 107 anos de Edward). Bella, de alguma forma, fica grávida. Por favor, diz Meyer, nunca esqueça do fato de que todos os fluidos do corpo dos vampiros são substituídos por seu “veneno” ou que o esperma seca depois de três dias, imagine em um século. De forma ainda mais fantástica, o feto de vampiro/humano cresce a uma velocidade alarmante, tão rápido que Bella sente os “chutinhos” após duas semanas de gestação. Eu nunca estive grávido, mas não precisa ser muito inteligente para saber que há algo errado com esse quadro.
Vou poupar você dos detalhes do restante desse show de horror. Acredite, a cena de nascimento é algo que eu desesperadamente desejaria não ter lido (depois que o assim chamado “bebê” quebra a pelvis, a coluna vertebral e as costelas de Bella, Edward abre caminho com uma versão um tanto insalubre de cesárea: com seus dentes). Desculpe, eu tinha que partilhar minha dor. Bella se torna uma vampira super especial com poderes super especiais e vence o não-conflito do não-clímax. Ah, não se esqueça da sua incrível habilidade de ir caçar na floresta com vestido e salto.
Infelizmente, Twilight não acabou. Já foi lançado um novo livro chamado Sol da Meia-noite (Midnight Sun), mas dessa vez não vou cair na armadilha. O fato preocupante é que milhões de garotas continuarão lendo essa trama sexista sem importar-se com o resto do mundo, obcecadas com o “perfeito” Edward Cullen e o “quente” Jacob Black, fingindo ser Bella Swan e ignorando traços doentios de uma relação, assim como a protagonista.
Eu me pergunto o que aconteceu para que, duzentos anos depois de uma heroína feminista como Elizabeth Bennet, tenhamos retrocedido a ponto de uma “fêmea-heroína-literária”, como a personagem de Meyer o é, fazer tanto sucesso.
(Kellen Rice)
quarta-feira, 2 de março de 2011
Proposta de produção de texto para tarefa - 3 E.M. (Tableau) e 2 E.M.(Alpha)
Produção de texto argumentativo. (UFPR – 2008 - adaptada)
O episódio relatado a seguir ocorreu em Tubarão (SC).
A adolescente J. S. S. foi impedida de entrar em um baile de gala realizado no Clube S. J., sob a alegação de que não estava evidamente trajada. Após uma discussão entre sua mãe e a portaria do clube, a moça pôde ingressar e participar do evento. Dias depois, J. S. S. e sua mãe entraram com uma ação na justiça contra o clube, solicitando reparação de danos morais.
Leia abaixo trechos da sentença do Juiz de Direito L. R. A., emitida em 11 jul. 2002.
[...] No Brasil, morre por subnutrição uma criança a cada dois minutos, mais ou menos. A população de nosso planeta já ultrapassou seis bilhões de pessoas e um terço deste contingente passa fome, diariamente. A miséria se alastra, os problemas sociais são gigantescos e causam a criminalidade e a violência generalizada. Vivemos em um mundo de exclusão, no qual a brutalidade supera com larga margem os valores humanos. O Poder Judiciário é incapaz de proporcionar um mínimo de Justiça Social e de paz à sociedade.
E agora tenho de julgar um conflito surgido em decorrência de um vestido. Que valor humano importante é este, capaz de gerar uma demanda jurídica? [...]
Um primeiro problema que surge é saber enquadrar o conceito de traje de gala a rigor, vestido longo, aos casos concretos, ou seja, aos vestidos utilizados pelas participantes do evento. Nesta demanda, a pessoa responsável pelo ingresso no baile entendeu, em nome do requerido [o clube], que o vestido da autora não se enquadrava no conceito. Já a autora e sua mãe entendem que sim.
Como determinar quem tem razão? Nomear um estilista ou um colunista social para, cientificamente, verificar se o vestido portado pela autora era ou não de gala a rigor? Ridículo seria isto.
Sob meu ponto de vista, quem consente com a futilidade a ela está submetida. Ora, no momento em que uma pessoa aceita participar destes tipos de bailes, aliás, nos quais as indumentárias, muitas vezes, se confundem com fantasias carnavalescas, não pode, após, insurgir-se contra as regras sociais deles emanadas. Se frívolo é o ambiente, frívolos são todos os seus atos. Na presente lide, nada ficou provado em relação ao requerido, salvo o fato de que a autora foi impedida, inicialmente, de entrar no baile, sendo, posteriormente, frente às atitudes de sua mãe, autorizada a entrar. Não há prova nos autos de grosserias, ou melhor, já que se fala de alta sociedade, falta de urbanidade, impolidez ou indelicadeza por parte dos funcionários do requerido. Apenas entenderam que o traje da autora não se enquadrava no conceito de gala a rigor e, por conseguinte, segundo as regras do baile, sua entrada não foi permitida. Isto, sob meu julgamento, não gera danos morais, pois não se trata de ato ilícito. Para quem tem preocupações sociais, pode até ser um absurdo o ocorrido, mas absurdo também não seria participar de um evento previamente organizado com regras tão estultas? [...]
Para finalizar, após analisar as fotografias juntadas aos autos [...] não posso deixar de registrar uma certa indignação de ver uma jovem tão bonita ser submetida, pela sociedade como um todo, incluindo-se sua família e o próprio requerido, a fatos tão frívolos, de uma vulgaridade social sem tamanho. Esta adolescente poderia estar sendo encaminhada nos caminhos da cultura, da literatura, das artes, da boa música. Poderia estar sendo incentivada a lutar por espaços de lazer, de saber e de conhecimento. Mas não. Ao que parece, seus valores estão sendo construídos pela inutilidade de conceitos e práticas de exclusão. Cada cidadão e cidadã é livre para escolher seu próprio caminho. Mas quem trilha as veredas das galas de rigor e das altas sociedades, data venia, que aceite seus tempos e contratempos, e deixe o Poder Judiciário cuidar dos conflitos realmente importantes para a comunidade em geral. [...]
Nessa sentença, o juiz extrapola a questão que estava em julgamento (se a adolescente sofreu danos morais ao ser pedida de entrar no baile). Em uma dissertação argumentativa de 20 a 25 linhas, exponha sua opinião sobre a conduta do juiz. O texto deve apresentar:
• O fato que deu origem à ação judicial;
• O julgamento do juiz sobre a demanda específica (existência ou não de dano moral);
• Os aspectos em que o juiz teria extrapolado sua função;
• Uma avaliação dos argumentos do juiz.
O episódio relatado a seguir ocorreu em Tubarão (SC).
A adolescente J. S. S. foi impedida de entrar em um baile de gala realizado no Clube S. J., sob a alegação de que não estava evidamente trajada. Após uma discussão entre sua mãe e a portaria do clube, a moça pôde ingressar e participar do evento. Dias depois, J. S. S. e sua mãe entraram com uma ação na justiça contra o clube, solicitando reparação de danos morais.
Leia abaixo trechos da sentença do Juiz de Direito L. R. A., emitida em 11 jul. 2002.
[...] No Brasil, morre por subnutrição uma criança a cada dois minutos, mais ou menos. A população de nosso planeta já ultrapassou seis bilhões de pessoas e um terço deste contingente passa fome, diariamente. A miséria se alastra, os problemas sociais são gigantescos e causam a criminalidade e a violência generalizada. Vivemos em um mundo de exclusão, no qual a brutalidade supera com larga margem os valores humanos. O Poder Judiciário é incapaz de proporcionar um mínimo de Justiça Social e de paz à sociedade.
E agora tenho de julgar um conflito surgido em decorrência de um vestido. Que valor humano importante é este, capaz de gerar uma demanda jurídica? [...]
Um primeiro problema que surge é saber enquadrar o conceito de traje de gala a rigor, vestido longo, aos casos concretos, ou seja, aos vestidos utilizados pelas participantes do evento. Nesta demanda, a pessoa responsável pelo ingresso no baile entendeu, em nome do requerido [o clube], que o vestido da autora não se enquadrava no conceito. Já a autora e sua mãe entendem que sim.
Como determinar quem tem razão? Nomear um estilista ou um colunista social para, cientificamente, verificar se o vestido portado pela autora era ou não de gala a rigor? Ridículo seria isto.
Sob meu ponto de vista, quem consente com a futilidade a ela está submetida. Ora, no momento em que uma pessoa aceita participar destes tipos de bailes, aliás, nos quais as indumentárias, muitas vezes, se confundem com fantasias carnavalescas, não pode, após, insurgir-se contra as regras sociais deles emanadas. Se frívolo é o ambiente, frívolos são todos os seus atos. Na presente lide, nada ficou provado em relação ao requerido, salvo o fato de que a autora foi impedida, inicialmente, de entrar no baile, sendo, posteriormente, frente às atitudes de sua mãe, autorizada a entrar. Não há prova nos autos de grosserias, ou melhor, já que se fala de alta sociedade, falta de urbanidade, impolidez ou indelicadeza por parte dos funcionários do requerido. Apenas entenderam que o traje da autora não se enquadrava no conceito de gala a rigor e, por conseguinte, segundo as regras do baile, sua entrada não foi permitida. Isto, sob meu julgamento, não gera danos morais, pois não se trata de ato ilícito. Para quem tem preocupações sociais, pode até ser um absurdo o ocorrido, mas absurdo também não seria participar de um evento previamente organizado com regras tão estultas? [...]
Para finalizar, após analisar as fotografias juntadas aos autos [...] não posso deixar de registrar uma certa indignação de ver uma jovem tão bonita ser submetida, pela sociedade como um todo, incluindo-se sua família e o próprio requerido, a fatos tão frívolos, de uma vulgaridade social sem tamanho. Esta adolescente poderia estar sendo encaminhada nos caminhos da cultura, da literatura, das artes, da boa música. Poderia estar sendo incentivada a lutar por espaços de lazer, de saber e de conhecimento. Mas não. Ao que parece, seus valores estão sendo construídos pela inutilidade de conceitos e práticas de exclusão. Cada cidadão e cidadã é livre para escolher seu próprio caminho. Mas quem trilha as veredas das galas de rigor e das altas sociedades, data venia, que aceite seus tempos e contratempos, e deixe o Poder Judiciário cuidar dos conflitos realmente importantes para a comunidade em geral. [...]
Nessa sentença, o juiz extrapola a questão que estava em julgamento (se a adolescente sofreu danos morais ao ser pedida de entrar no baile). Em uma dissertação argumentativa de 20 a 25 linhas, exponha sua opinião sobre a conduta do juiz. O texto deve apresentar:
• O fato que deu origem à ação judicial;
• O julgamento do juiz sobre a demanda específica (existência ou não de dano moral);
• Os aspectos em que o juiz teria extrapolado sua função;
• Uma avaliação dos argumentos do juiz.
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